
“Marcela manda que lhe aconselhe, manda dizer que se nada der certo, tu jogues esse tal baú ao mar e se junte a nós, nessa brincadeira de vazios”
"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior. Morder como quem beija. É ter cá dentro um astro que flameja. É ter fome, é ter sede de Infinito!" (Florbela Espanca)
“Marcela manda que lhe aconselhe, manda dizer que se nada der certo, tu jogues esse tal baú ao mar e se junte a nós, nessa brincadeira de vazios”
Caro amigo,
se discordastes de meus novos métodos com o amor, reprovarás ainda mais a vida mundana a que venho me entregando, tão vazia que se eu gritar, fará eco. Eco, bem dentro de mim e de todo esse vazio que agora sou eu.
Tudo começou quando conheci Marcela, àquela garota conseguiu de alguma forma inexplicável sufocar os próprios sentimentos a ponto de quase não senti-los. Primeiro tive pena de Marcela e toda sua cafajestagem. Tive mais pena ainda das suas vítimas, as vítimas que ela não dá esperança, mas que mesmo assim se decepcionam diante do seu espírito “prático” de não querer mais nada das mulheres, senão sexo e de preferência do bom.
Marcela, como tu e a maioria de nossos amigos, é fissurada nesse tal Caio Fernando Abreu, mas acho que sua leitura é um tanto limitada aos capítulos fatalistas, realistas, trágicos ou qualquer coisa nesse sentido. Essa mulher tem um humor negro irresistível e adora ouvir blues, enquanto traga seus inseparáveis cigarros e se embebeda com cervejas não tão geladas. Mas o mais atraente em Marcela, meu amigo, é a forma como ela pensa em todas as coisas do mundo, para não pensar naquilo que a incomoda. Assim, no fim do expediente de um dia sacana de trabalho, eu sento no sofá da sala dela, afrouxando a gravata e ouvindo ela falar em trânsito, big bang, política e concatenando tudo isso como se fosse uma coisa só e é, então, que a acho incrivelmente irresistível. Pena que ela não gosta de homem e isso é muito mais uma qualidade do que qualquer outra coisa.
Então, meu querido, perdoe a frieza com que lhe escrevo, com ásperas palavras de indiferença, mas a vibe é outra. Tenho aprendido com Marcela de que de nada adianta ficar chorando pelos cantos por amores infalíveis que sucumbiram diante da primeira impossibilidade, nem se apegar a cartas antigas – a propósito, queimei metade delas e a outra metade está tão bem guardada que por hora tenho preguiça de procurá-las – ou lembranças, porque enquanto choramingamos o mundo gira e as coisas acontecem sem que estejamos lá para presenciá-las...
Enquanto lhe escrevo essa carta – perdoe as folhas de guardanapo – Marcela manda que lhe aconselhe, manda dizer que se nada der certo, tu jogues esse tal baú ao mar e se junte a nós, nessa brincadeira de vazios, porque o mundo está cheio de pessoas superficiais o suficiente para apenas quererem satisfazer nossa libido e se esquecerem de nós, como nós certamente as esqueceremos depois que a ardência passar. Marcela ri e pergunta se homem têm ardência e enquanto ela ri eu tenho pena dela, mais uma vez, tentando ser forte em meio a tempestade. Então não fique triste comigo, ou com ela, porque cafajestagem, meu amigo, é apenas uma capa que esconde fragilidade, desesperança e medo, e é isso mesmo, cada um se defende como pode.
Mas conselhos marcelísticos a parte, enquanto lia sua última carta aconteceu o mesmo de sempre, me vi em suas palavras. Então, mesmo que estejamos em sintonias diferentes, espero que consigas me enxergar em toda essa sujeira, pois é como eu disse, cada um se defende como pode e lembranças, quando alimentadas, se tornam dragões que a cada dia nos arrancam uma parte do corpo e temos que nos acostumar a viver sem ela. Estou apenas matando esse tal dragão, antes que ele me devore.
Hoje quem vos fala é aquele Desconexo bem vestido que antes de sair de casa sempre olha em direção a estante empoeirada onde jaz o poeta. Aquele filho da puta não me entende e é por isso que vivemos assim agora, separados. Eu tenho inveja dele e ele pena de mim, do mesmo modo que tenho pena de Marcela. E assim vamos vivendo, sem a melhor parte de cada um de nós.
Mas acontece que no fim da noite, ou melhor, no começo do dia, quando o bar está vazio e mais escuro que o normal, Marcela no banheiro ou num motel barato comendo um mulher sem nome, que ela jamais olhará nos olhos – um dia desses eu te conto essa teoria dela – e eu aqui sozinho bebendo cachaça pura enquanto fumo minha quinta carteira de cigarro esse tal Poeta Desconexo senta aqui a meu lado, bebe de minha bebida, fuma de meus cigarros apreciando minha teoria de que fumando aos pouquinhos se tem mais chance de morrer de câncer do que fumar sem parar, porque pessoas assim ainda morrem de velhice contrariando as estatísticas.
Ele bebe e fuma em silêncio. Nós bebemos e fumamos em silêncio. Enquanto eu penso em uma definição para vazio, ausência e falta o desgraçado me olha com aquela expressão de “sou bem mais que você” e diz, como se falasse a uma criança: um dia você se cansa de tudo isso.
Saudações,
do puto Desconexo.
O que eu queria agora era ler um Desconexo amante e escrever como um Poeta no cio. Eu fiquei feliz em saber que a minha última carta te passou esperança, porque era realmente o que eu estava sentindo. Ando tão sem chão, tão sem nada que me fugiram até os ideais. Agora tenho raiva até dos ditos populares, imagine você. Oras, se a esperança é a última que morre, o que pode um poeta como eu estar sentindo? Sabe-se lá o que vem depois dela, se vem. É qualquer coisa como saudade, mas que arde como ácido em ferida aberta. Apesar de tudo, estamos aqui, firmes, tentando.