quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Porque poeta não morre na segunda estofre



Amigo Poeta,


Imaginei-me lendo uma coisa dessas. Imaginei como num sonho, eu lendo por tabela, no jornal do companheiro do lado, a tua morte tão trágica como inesperada, mas ainda assim, digna de um poeta. No sonho, eu primeiro não acreditaria, pediria o jornal para ler com mais calma, para confirmar endereço, tinteiro, a garrafa de vinho, o cinzeiro. Tudo fora do lugar. E tudo teu.

Eu me imagino sentando na calçada, lamentando que há muito não o via, não bebíamos e falávamos da vida e do amor, ou da morte e do desassossego. Iria pensar tristemente que não fui ao show como havia lhe prometido, que não tinha notícias tuas e mal as procurava saber, apenas tendo breves relatos de nossos amigos em comum. Mas a verdade é que eu pensava que estavas tão bem em tua felicidade de fotografia, mas eu devia saber que fotografias sempre se desgastam. Mas eu pensava que tu estavas tão bem em tua felicidade de novela, mas eu devia saber que novelas são de mentira.

Então eu pensaria que se fosse à outra época eu ira beber no teu túmulo, iria recitar poesia até amanhecer. Mas poeta, vá lá, como podes morrer na segunda estrofe?

Faça do corte profundo um caminho, que depois de costurado, ponto a ponto, cicatriza numa estrada torta, que mesmo tênue e sensível você terá como referência de por onde passou e para onde irá.

E do sangue que se esvaiu, manchando as folhas de papel, faça tinta. Não lhe direi que você não há de ficar pálido, ficará. Sem cor alguma e quase tão vazio quanto a ultima garrafa de vinho que esvaziou. Mas do sangue, das lágrimas e da dor, redescubra a cor, seus novos tons e combinações.

Porque poeta não morre, senão para reviver, te levantas daí e me contas as novas, como vai teu amigo barbeiro, como sopra os ventos por essas bandas.


Eu estive pensando: amor é bicho traiçoeiro. Quando ele bate na porta, às vezes fingimos não ouvir, e então, ele entra quieto. Fica ali meio de canto e muitos de nós persistentemente fingimos não vê-lo, como se ele nem estivesse por ali. Com o tempo o amor sai do canto, abre uma janela e deixa entrar uma brisa fresca, daquelas de fim de tarde, que só com muita força podemos fingir não sentir. E depois de mais um tempo, lá está o amor, no meio da sala, mudando os móveis de lugar, cantarolando uma música, pendurando cortinas nas janelas. E de imperceptível, ele se torna imprescindível.


Agora eu te pergunto: o que fazer quando a janela não abre e a brisa não entra, a cortina não tremula e os móveis, ah os móveis! O que fazer quando eles ficam a te fitar com pena?

Um forte abraço,


Desconexo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O poeta está morto.

Eu sou fraco, impotente e covarde. Ridiculamente covarde por não dar liberdade a quem precisa dela, por ter medo de sofrer de novo, por puro egoísmo de ter sempre perto.
Ontem eu desejei ver a minha própria morte, tal qual Brás Cubas, e ler a notícia em um jornalzinho largado em um canto qualquer:


O Poeta está morto, foi encontrado sem vida em seu próprio casulo ideal. A causa da morte teria sido um profundo corte que dilacerou boa parte do fraco, porém resistente, coração. O corte foi feito por uma única palavra: "Preciso".



(Escrito há alguns meses, mas também faz sentido hoje.)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Um sorriso de esperança




Amigo,

Se é ridículo eu não sei, mas que é irresistível, isso não podemos negar. Amar é como aquelas coisas que por mais que todos os alertas pisquem tentando fazer com que a gente siga na outra direção, nos deixamos vagarosamente escorregar e sermos tragados para o bem, ou para o mal. É como se empanturrar de chocolate em uma madrugada da semana que você decidiu entrar de regime. Como tirar folga no meio do dia mais cheio, simplesmente porque você precisa sentar no banco de uma praça e sentir o vento tocando seu rosto. Como tomar banho de chuva correndo o risco de ficar resfriado. Ou se sujar brincando com o cachorro, bem antes de sair.

Mas é isso, o que seria de nós sem todas aquelas coisas que dissestes? Somos ridículos e idealistas porque em um segundo, em um olhar e um sorriso podemos ver o mundo transbordando de felicidade, para no segundo seguinte algo tentar nos mostrar a realidade, mas em vez de ficarmos taciturnos e concordarmos que nada vai mudar, temos dentro de nós, bem guardado lá no fundo uma faísca de esperança. São assim que desenhos de casa de papel servem para todas as crianças de rua morar.

Bobos e palhaços por cruzar meio mundo pra achar o bichinho que ela tanto quer, ou a rainha vermelha do jogo de baralho, ou até pedir atrapalhado o hambúrguer de nome mais estranho e mais caro da loja só para a ver sorrindo com os olhos. E é tão pequeno aquele instante em que ela dorme no teu ombro e tu te permites ser um bobo sonhador, com uma leve e fugaz sensação de que as coisas realmente podem ser diferentes, que tudo que se quer é que ele dure por toda a eternidade. Um segundo que dura por toda eternidade, e é assim que nasce e persiste o “pra sempre”, meu querido amigo.

E como tu bem dissestes “Amar é perder os rumos, é perder as canetas”. É tentar achar a palavra certa para dizer tudo aquilo e logo depois concordar que todas elas são insuficientes para o que só se pode sentir. E é claro que não se desaprende isso. Nós tropeçamos e até nos emburramos, e por um tempo decidimos que já chega. Mas é como começar a andar de bicicleta, você fica encarando aquela coisa que você tanto sonhou, tanto quis e que agora te faz cair, te arranhou o joelho e até te fez passar vergonha diante de todos, encara e decide recomeçar, persistente. E quando se desce a ladeira, com o vento contra o rosto, sem cair, mas ainda com um medo enorme de quebrar a cara, ai meu amigo, se aprende a amar, e como andar de bicicleta... sim, aquele velho clichê.

No dia em que tu se permitiu concordar comigo, eu me permiti sorrir com esperança para esse elixir que irresistivelmente bebemos e torcemos para não morrer, apenas pelo gosto bom que ele tem. Espero que isso seja algo perto de um “sorriso [com] aquela esperança de amor gratuito e simples pra seguir uma longa estrada”... Ainda continuo vivo, sorvendo aos poucos esse tal elixir, com um cuidado nada planejado, um dia após o outro e apenas isso...


Um grande abraço, do desequilibrado,

Desconexo.

sábado, 18 de julho de 2009

Amar é ridículo (ou não).

Agora podemos dizer que a comunicação voltou. Eu sinto tantas saudades suas que às vezes me pego pensando que sou dependente das tuas notícias. Talvez seja porque elas fazem brotar em mim essa vontade de estar conectado; de transcrever paisagens e/ou sentimentos.
O tempo realmente anda estagnado: é sempre o mesmo horário e o mesmo clima. Mas não podemos esquecer que seis da tarde é final do dia de estudo, de trabalho e é o melhor momento para encontrar amigos, curtir escadarias e conversar até o último ônibus permitir ou até a última carona sentir-se confortável.
Enfim, entre outras coisas, hoje acordei com vontade de concordar um pouco contigo e de forma extremista, dizer: Amar é ridículo!
O amor é o “ridículo da vida”, diria Cazuza. “O amor nos torna patéticos”, diria Jabor.
Todo processo de entrega torna-se, curiosamente, vagaroso e leve. Ouvir música é transportar o outro pra uma visão 3D que a gente quer tocar, mas só admira bestificado, olhando o nada.
É ridículo imaginar que o mundo a nossa volta torna-se inútil, porque o amor nos “corta os fios de realidade”, diria Clarice. Esperar horas diante do telefone que não toca e, esperando, fazer mantra pro tempo passar mais rápido enquanto o bom dia não chega. Amar é perder os rumos, é perder as canetas. Mas, olha só, amigo, nós não desaprendemos a amar, esse processo é totalmente intrínseco. No máximo a gente dá um tempo pra que o amor durma e acorde refeito, maduro e cheio de vontades.
Outra coisa que venho aprendendo há algum tempo: lembranças são traiçoeiras. Tomemos cuidado com elas e com falsas sensações nostálgicas. O ideal é equilibrar vontades. Suspirar lembranças do que foi há minutos atrás.
Mas para aquele que deseja realismo, digo: Previna-se realmente! Paixão e Amor são para os fracos e idealistas, indiscutivelmente.
Os fortes ficam sozinhos a cada nova esquina, são pesados, carregam cadernos e canetas, escrevem muito e vivem amores efêmeros.

Afinal, para que serve o amor?
Só para multiplicar o número de bobos, patéticos, ridículos.

Porém, para aqueles que desejam complementaridade, sorrisos matinais que transcendem luz, “eu te amo” dito bem cedinho ou tarde, antes de dormir; abraços reais durante o sono, poesias ditas bem de pertinho, saudade antecipada que massacra o peito, sentimento de “querer bem” e ser desejado. Para aqueles que querem leveza eu digo mais: Renda-se enquanto puder ouvir o vento, enquanto puder sentir (ou fazer) uma canção.
O amor continua sendo ridículo. E nós, poetas, mais ridículos ainda porque transformamos o dito cujo em palavras. Porque desdenhamos daquilo que nos alimenta e porque também somos Fracos.
A ti, amigo, desejo força. Quero ver no teu sorriso aquela esperança de amor gratuito e simples pra seguir uma longa estrada (sem esquinas – elas trazem amores perigosos e ilusórios).


Estrada por estrada, continuo viajando e, ridiculamente, amando.

Abraços do teu fraco amigo Poeta.

terça-feira, 14 de julho de 2009

As faces do poeta


Estimado amigo Poeta,


Não saberia precisar as horas porque em tempo nublado sempre parece seis da tarde. Mas diferentemente do tempo a vida por aqui está com tempo tão bom e tão leve que até parece primavera. Foi com grande felicidade que recebi tuas notícias e vi se desenhar todo esse espetáculo, onde horas me senti como ator, horas como autor... mas ninguém escreve tão bem a meu respeito, como tu, somos parecidos, afinal...
As chuvas atrasaram a revolução por mais algum tempo e a espera, aqui do outro lado do rio, me traz todas as reflexões do mundo...

[...]

Um amargo poeta

Estimado Poeta,
de tantas maneiras já imaginei como lhe escrever... Mas começo por dizer que devo ter desaprendido isso, assim como desaprendi compaixão, compromisso, vontade... Amor...
As chuvas interromperam a revolução por algum tempo... Do outro lado da estrada avalio que não consigo mais enxergar as qualidades de um revolucionário em mim, tampouco de um poeta... Estou tão vazio hoje que se eu gritar, vou ouvir o eco dentro de mim...
Não existe mais nada em que ter esperanças ou sonhar? Acontece que as palavras precisam ser sentidas para serem escritas e eu não sei até que ponto ainda sinto algo, senão esse desagrado por todas as coisas, como se nada do que coloco tinta fizesse algum sentido... As coisas para mim tem sido como minha letra para os outros, em que se desiste antes do segundo parágrafo.
A felicidade que me acenava horizonte acima, parece que desapareceu por lá mesmo... Pelo menos desse outro lado da estrada eu não consigo observá-la... Não mais...
As lembranças voltaram a me perseguir como os fantasmas de minha sombria consciência... Quero me apegar a elas como uma desculpa para voltar a ter algo que sentir, mesmo que seja mágoa ou tristeza... E estou quase acreditando que sentir isso é melhor do que não sentir nada... É melhor do que contemplar minha insignificância diante da mecânica do mundo... Melhor do que a inutilidade de uma tarde perdida tentando achar o significado para toda a encenação do mundo e para minha angústia diante de tudo isso...
Para completar, sinto que estou caindo na velha armadilha... Eu vi em algum lugar, não me lembro onde: Paixão dá e passa... Dá e passa... Eu completaria: Paixão dá e passa... Ao persistirem os sintomas procure um poeta... Paixão pode virar amor. Previna-se.

[...]

Fragmentos... Foi nisso que minha vida se tornou... Um pedaço de qualquer coisa pra viver, pra sorrir, pra chorar...

[...]

“...Sobre a dor das palavras e outras lágrimas....” – O título de um poema que não escrevi...

[...]


Renúncia

Eu, poeta, numa idade incerta, morada dos pássaros, dispondo de todas as minhas faculdades físicas e mentais renuncio ao amor e todos os benefícios que dele pode advir. Renuncio também a qualquer expectativa de felicidade constante, assim como de sonhos e planos.
De hoje em diante, viverei de versos simples sobre o cotidiano, inquietações puramente lógicas e realistas sobre a situação do mundo ou do homem e na falta de assunto, não me darei ao trabalho de escrever.
Não alimentarei amizades de qualquer tipo, tampouco as expectativas que alguém possa ter a meu respeito. Ainda serei imensamente sincero, e portanto, leal com qualquer um que ainda mereça minha consideração...

[...]

Alívio ou Aceitação

Meu querido amigo,

É noite sem lua e acabei de tomar um caldo para tentar me livrar da ressaca que adveio das emoções de ontem. Mas resumindo tudo, não foi bêbado que fiquei, mas em êxtase.
Todo o peso do mundo desafogou dos meus ombros e ficou na porta azul, única testemunha de todos os meus incontáveis segredos, desabafados aos sussurros. “Eu te amo...”
[...]

Por mais que tentasse lhe resumir por tudo que tenho passado nos últimos tempos, nada fazia sentido o suficiente ou era fiel aos acontecimentos. O tempo é de mudanças, meu caro... velhos estabelecimentos fecharam, nossos amigos não são mais bem vindos na cachaçaria, fui demitido do emprego que quase me corrompia, a revolução engrenou...
E os sinais das mudanças estão por toda a parte: nos livros que comecei a ler, nas histórias que ressuscitei, na mala suja de poeira, no corpo da minha menina entrelaçado ao meu, nos poemas novos...
Mudança tem cheiro de café ao amanhecer...

Quanto a trago, bom, aceito um vinho, aceito as velhas poesias invocando nossos mestres, aceito teu violão cantando nossas paixões... mas permita-me recusar o trago... deixei esse vício para trás, assim como deixei tudo que me pesasse o ombro, como aquela roupa de festa, que detesto vestir... arggg... rsrsrsrsrsrrsrsr

Saudades...

Desconexo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Espetáculo em vermelho.

Era o que mostravam os cartazes que estavam colados pelos muros da cidadezinha cinza: aquele espetáculo, em poucos dias, voltaria a ser apresentado no pequeno teatro que estava em constante estado de melhora. Nos cartazes, nós poderíamos ler que ele voltaria, mas de cara nova e teria até atores novinhos em folha. Algumas pessoas, as poucas que tinham conhecimento dele, ou que haviam assistido o sucesso e a decadência da última temporada, comentavam pelos cantos da cidade e queriam ver que rumo teria tomado a vida do poeta-palhaço que tanto amara e sofrera em dobro.
Há alguns dias a barbearia tem permanecido de portas trancadas. Os ares por aqui são tão fortes que até o sábio barbeiro está amando. Fechou-se em um mundo e nem aos soldados tem atendido. Porém, com a notícia de que o espetáculo voltaria, até mesmo o barbeiro saíra para ler o cartaz mais próximo.
Enquanto a cidade comentava o grande tempo que o espetáculo ficara fora dos palcos, o poeta-palhaço se preparava, trancado em seu mundo, para mostrar até onde ele conseguiu ir com um amor que muito ensinou e machucou.
No dia da estréia, os velhos conhecedores do espetáculo estavam lá, prontos para aplaudir ou vaiar os novos rumos escolhidos pelo sempre palhaço principal.
O palhaço entrou em cena com o coração dilacerado em mãos, mais uma vez havia sido colocado de lado, como aqueles velhos cadernos de poesia que escrevemos quando criança e depois paramos pra ler: é bom ter o passado próximo, porém é bobo, não serve mais (?). Acontece que nos momentos de dor são eles que nós procuramos.
De repente entra no palco aquela mulher trajando um vestido vermelho-arrebatador, aquela que deixara o poeta, mesmo enfeitiçado, ver além. Aquela que em uma noite, por momentos, trouxe brilho para olhos cansados e o fez vestir o futuro sem medos. Ela era aquela que viria curar e incrementar, que fez um mês parecer um ano iluminado. A menina dos olhos deste pobre poeta sonhador.
Todos esperavam perplexos enquanto o circo do palhaço parecia ganhar cor, cor vibrante, cor vermelha. O elenco principal havia mudado, o palhaço saíra de cena, deixando o poeta brilhar. As luzes mudaram de lugar, outro ser (a minha mulher de vermelho) entrara em cena e o poeta, de tanto usar, acabara de perder todas as palavras. Poeta, ele continuara poeta? Ninguém sabe.
Aquele velho ator principal no seu próprio espetáculo do amor, ator coadjuvante no da vida, resolvera tomar novos rumos, já conseguia sorrir constantemente, mas ainda carregava, como aprendizado, seu doce-amargo passado.
Ator-aprendiz, palhaço-bobo, poeta-desconexo, fumante-poético, bêbado-musical, amante-apaixonado.

Quanto tempo não, amigo? Agora é hora de retomarmos o espetáculo que ficara perdido, precisava informar que o espírito deste poeta está leve e feliz, tem novas bases, enfim.
Então, em nome dos novos tempos, vamos brindar com aquele velho cigarro qualquer dia?
Abraço do teu amigo fiel, leve, ádvena, vil, inábil, amante.

O Poeta
.

domingo, 1 de março de 2009

Mal escrito...




Amigo,

muita coisa aconteceu desde a última vez que lhe escrevi... Como lhe alertei, tomei minha decisão...
Estou agora mesmo observando as casas que se equilibram uma nas outras e do outro lado da rua, a janela dela, entreaberta. Ela esta lá dentro, mas não sou eu que estou ao seu lado...
Creio que já lhe disse, meu amigo, que a vida é feita de escolhas... O que eu não sabia, ou melhor, não acreditava, que podia existir uma força, ou o destino, ou Deus, ou que quer que seja (ou que quer que chamem), que de alguma forma conspira para você tomar uma decisão, e talvez essa seja a menos dolorida... Digamos que eu fechei os olhos para esse mago desconhecido...
E assim as dificuldades logo começaram, muitas e das mais variadas, e foram dias e dias de espera e angústia, onde por vezes pensei em desistir... mas a minha teimosia foi mais forte e continuei em frente...
E esse foi um tempo até muito produtivo, em breve lhe escreverei a respeito... Não vou lhe mentir, meu amigo, não tenho vontade é de escrever sobre nada...
Sinto tudo dentro de mim desmoronar, e eu não faço nem idéia de onde estão os pedaços para que eu possa juntar...
Estou aqui e me sinto como um fantasma, vagando pela casa vazia, assistindo outros encenando a vida que sonhei pra mim... Achando tudo vazio demais...
Não sei quando dói mais. Se quando a olho inúmeras vezes, na penumbra do quarto, sentindo o cheiro, ouvindo a respiração, sem ao menos... toca-la...
Ou quando vejo o sorriso dela... lindo... que não é dirigido a mim...
Ou ainda, quando ela me abraça em silêncio, – e meu coração quase arrebenta no peito – triste pelas dores de outro amor...
Não... dói mais quando ela finge que não me conhece... dói mais quando não a reconheço... Dói quando ela me fere... quando ela pisa... E dói mais ainda quando ela sorri como se nem percebesse o que está fazendo....
Mas ainda dói quando vejo machucarem-na.... quando a vejo tão triste que mal consegue pensar... Dói pensar que minha impotência continua a mesma, talvez até mais impotente... Dói pensar que minha “vingança” será deixar que ela viva a vida que escolheu... e que ela ainda se machucará muito e muito até aprender...
Amigo, aprendi muitas coisas nessa minha empreitada... Apanhei muito também e sinto que posso ser alguém diferente depois de tudo... Tenho medo de ter me machucado tanto, que já não sinta mais nada...
Não há mais o que falar sobre esse assunto. Encerro por aqui qualquer divagação a respeito da malfadada escolha. Que os amigos que torceram, se preocuparam, e até contribuíram para a tomada de minha decisão, perdoem-me o silêncio, a falta de notícias, a escassez de palavras...
Quero voltar à minha vida.... Quero meus amigos de volta, quero minha antipática simplicidade, quero minhas músicas velhas, quero minha “rebeldia sem causa”... E assim como você, viverei ainda um pouco de velhas lembranças...

“Nada é igual sem ela, nada é completo sem ela”

Ah amigo! Digamos que seu amigo aqui escolheu o amor, mas ele não o escolheu... Assim “se amor não se mata, ao menos eu o enterro vivo aqui nessa cidade...” Afinal, vão-se os amores... Ficam os poemas... os poetas... E uma palavra qualquer...

Perdoe-me esse mal escrito que chamo de carta... Mas a mim me parece que o poeta precisa de três coisas pra escrever: a cabeça, a mão e o coração.... Meu coração está em coma...

Abraços saudosos,

Desconexo.

A carta extraviada


Enviado em 27/01


Um trago ao poeta

Amigo Poeta,
eis que estou na janela de um prédio qualquer apreciando a beleza dura e concreta do cinza das noites dessa cidade tão conhecida nossa, onde outrora estivemos juntos...
Solitariamente estou alimentando aquele vício que, aqui mesmo, me induzistes a “apreciar”... Um jeito perfeito de lembrar de ti, nossos amigos, nossas andanças. Como estão todos?
Nesse exato momento eu me sinto cansado... muita gente... muitas atividades... Você realmente iria gostar de estar aqui, nos divertiríamos, no mínimo...
A propósito, venho refletindo a respeito do sentido dessa palavra... Diversão... Digamos que ela depende de um amontoado de significados, e às vezes pode ser despido de nenhum...
Minha diversão às vezes depende de palavras, outras vezes de música, outras depende essencialmente de pessoas, e de pessoas específicas...O que me faz concluir que estamos longe de sermos auto-suficientes, dependendo de coisas e pessoas, assim como o trago depende dos pulmões...
Perdoe-me minha falta de rima, ou meu quase sem-sentido, mas ultimamente tenho com figuras bastantes peculiares que me mostraram que a poesia é feita mesmo sem rimas, com as coisas mais simples, mas sem-sentido.
Tomei minha decisão poeta, terás notícias minhas.
Um grande abraço, cheio de saudades,

Desconexo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Nostalgia

Os meus dias têm sido assim: repletos de saudades.

Saudades suas, saudades da minha falsa sensação de completude, saudades dela, das coisas que ela dizia e me afagava o coração. São níveis nostálgicos diferentes.
Agora sinto arder em meu peito uma saudade da cadeira de balanço e dos bolinhos da minha avó paterna. Eu lembro que ela vivia sozinha, por escolha própria, em um sítio - desses de avó daquelas histórias que nós lemos na infância sobre férias - onde cultivava tudo aquilo de que tinha necessidade. Tudo que precisávamos encontrávamos ali pertinho, no fundo do quintal. Tinha decidido viver assim desde que perdera o meu avô, que ela dizia ter sido o único e grande amor de sua vida; iria morrer só, vivendo de saudades.
Como era maravilhoso subir na mangueira, pegar a fruta e comer ali mesmo, sob uma sombra cheia de silêncios que uma criança não se dá conta da importância, mas que o adulto sente uma falta doída tremenda.
Lá nós dormíamos cedo e acordávamos muito cedo também, com o cantar dos pássaros que eram criados lá mesmo, sentindo o cheiro do melhor café e do bejú com queijo saindo do fogo, o beijo na testa e o “oxente” da minha avó. No final da tarde ela estava lá, sentada na velha cadeira de balanço e contando as piadas que só ela sabe fazer (a minha avó não conta historinhas, conta piadas). Aquela cadeira em que eu sentava e tinha a sensação de que estava em um barco à deriva e só queria isso mesmo, permanecer sem porto.
A cadeira da minha avó era como o amor...

Deixamos-nos levar pela leve sensação de flutuar; às vezes mal, às vezes bem, mas flutuando e isso já vale. Subindo e descendo, para um lado e depois para o outro: às vezes é chato e faz um mal danado, mas ainda assim estamos ali, navegando em águas que nem sabemos onde vão dar. A dúvida também é cruel. Pior é encontrar, no meio do nada, um obstáculo que vá nos fazer parar, cair, afundar. Afundar não é o maior problema, o pior é a sensação de ESTAR afundando e salvar nosso sentimento não depende de nós.
Sim, amigo, somos dois medrosos. Eu não tenho mais medo de ficar sem porto, porém sinto-me machucado vez ou outra e saio por aí querendo mudar as coisas facilmente, no impulso. Exatamente como ela pede (até nisso até ela tem força).
Eu acho que já passei da fase do medo de ser ridículo em continuar gostando, mesmo porque não há para onde fugir. Mas os medos ainda me dominam. A diferença entre nós dois é que eu disse que não importava a condição, era com ela que eu queria estar, enfrentando o que fosse. Do que me serviu? Hã, não ousaria dizer que nada, mas digo que foi muito pouco.
Acho que nós, amigo, sabemos sim explicar que elas são o nosso maior sentido, agora eu penso é que elas não querem entender. Acredito que não seja difícil perceber tanto querer em linhas de inúmeros textos, algumas TÃO claras.
Já li de tudo, já li coisas que aproximam e dolorosas coisas que afastam. Já entendi, já tentei entender, já abri mão de coisas, já refiz caminhos tentando achar o que, de fato, teria caído do meu bolso. Já a esperei em esquinas por onde ela não passa e não passará. Agora eu parei de esperar, vou permanecer nas velhas lembranças até onde eu puder.
Mas ainda na mesma linha: nada é igual sem ela, nada é completo sem ela.

E você, Desconexo, mande-me notícias urgentes. Quero saber a quantas anda a batalha entre o trabalho e o amor. Desculpa a demora, amigo, a inspiração bateu asas daqui.
Abraços.
O Poeta.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E na hora certa o que escolher?


Somos dois medrosos então, meu estimado amigo. Eu tenho medo de não fazer o suficiente para que ela saiba que ela é amada. Tenho medo de parecer ridículo em ainda amá-la, quando nem sei se ela ainda me espera. Tenho medo de ser tarde demais para olhá-la, reconhecer seu sorriso, sentir seu cheiro... Tanto medo de que nada disso ainda possa ser meu... um dia...

Entendo todas as tuas palavras, como se fosse minhas próprias, meus sentimentos, minhas angústias. Ah Poeta, estou tomando minhas decisões e arrumando minhas malas ao mesmo tempo em que sou tragado pelas lembranças...

O amor, como os apaixonados são comparáveis a montanhas, sim, longas e tortuosas montanhas, aquelas que determinadamente queremos alcançar o cume. No começo somos impelidos por uma irresistível força, vemos aquela altura toda como um grande desafio, e cantarolando uma canção qualquer nos pomos a subir. Vemos beleza no esforço, nas pedras com as quais podemos nos apoiar...É o sorriso que nos faz subir um pouco mais, são os planos que nos fazem passar por aquele caminho mais complicado, é o “eu te amo” que nos faz esquecer o cansaço e continuar a subir...

Hoje ela não está aqui e faz frio... então olhamos para aquela enorme montanha, em todo o caminho que precisa ser percorrido... E onde ela está, que não está aqui para segurar minha mão e dizer para ter paciência? E porque só consigo me lembrar de que ontem, antes de sumir, ela me perguntou se ainda havia mesmo sentido em subir essa montanha? Lembro-me de seu olhar triste verificando montanha a baixo, e toda a linda e vistosa vegetação ao redor enquanto me dizia que eu mereço muito mais do que estar ali, com ela, enfrentando várias privações, sem nem mesmo saber ao certo o que terá no fim. Fiquei triste na hora por pensar que tudo aquilo que dizia, talvez ela pensasse a seu próprio respeito, talvez aquilo não fosse para ela, talvez ela queira mais do que as incertezas de uma tortuosa montanha, talvez não seja mais suficiente os meus abraços nas noites escuras de medo....

Hoje, sozinho, fico lamentando por não ter dito, e agora nem poder dizer a ela que, não me importa o lugar ou como, eu só quero estar com ela, eu preciso estar com ela... Porque não importa muito se quando chegarmos ao cume não tiver descanso e uma bela vista, a minha recompensa foi cada minuto a seu lado, foi levantá-la quando ela caiu, foi aquele olhar cheio de carinho que ela tinha enquanto cuidava de mim, foi levá-la em minhas costas fazendo graça com o seu peso...

Diga-me amigo, porque mesmo nós, poetas, não conseguimos explicar a elas que nada mais precisa ter sentido, porque ela é todo o sentido... todas as palavras... todas as estrofes... toda a inspiração?

Porque não conseguimos lutar contra a força que nos impele...

Não me surpreendo mais por não me reconhecer... por não conseguir sequer responder aquela corriqueira pergunta do como vai... Tampouco me assusta, o fato de ainda me sentir incrivelmente vazio, seja quando me entrego ao trabalho, ou aos vícios... nada mais me preenche... E tudo isso porque falta um pedaço meu, aquele que ela nega, aquele que ela insiste que é nocivo, aquele que ela traz e depois se arrepende, e leva de volta....

Agora entendo essa sua medida desesperada de abrir o baú, precisamos nos apegar a qualquer coisa para tentar seguir em frente, mesmo que seja às dores das lembranças ou a angustia das falsas esperanças... Foi mais ou menos isso que tentei quando, naquela tarde queimei meus desejos por ela... as chamas consumiram a fita, não os desejos....

E idealismo, meu caro, é defeito de poeta... Ou achas que há alguma ponderação ou realismo em abandonar trabalho, projetos, responsabilidades assumidas, laços, por um olhar, uma resposta? Oh dúvidas que não me deixam pensar, que já quase me fizeram desistir, desarrumar as malas, e que a todo custo minha paixão, meus sonhos, minhas pseudo-esperanças tentam dissipar! E onde ela está? Onde mais além de dentro de mim?

Tento repetir para mim, para ela, para ti e para tua: “Fácil é dizer eu te amo, difícil são as coisas que tem que ser feitas por amor...”.

Sinceramente tenho medo sim, de me decepcionar, de sofrer um pouco mais, mas tenho mais medo ainda de descobrir, numa tarde fria e solitária de domingo que não fiz o suficiente por minha própria felicidade, de que não amei o suficiente, que não me permiti chorar o pranto da perda, da saudade, de que tive medo de viver meus melhores poemas... disso sim tenho pavor! E confesso: tenho medo por ela também...

Eis que se aproximam momentos decisivos em minha vida, um grande passo para minha formação para a revolução, um grande passo para enfim ter nos meus braços a mulher que amo... E me vejo diante de decisões cruciais, de medos, de fantasmas... E na hora certa o que escolher?

Espero que possamos nos encontrar antes que eu parta para essa grande empreitada, tomar um ultima taça de vinho, declamar um último poema que ressoe por todo o tempo que ficarei fora, e não deixarei de lhe escrever, meu amigo, afinal, preciso me sentir compreendido, também por tuas palavras....

Desconexo.



sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Mal-me-quer, Bem-me-quer

Amigo com muito nexo, devo confessar-te uma coisa: tenho medo de amar!

...

É sim, é isso, não há vergonha em dizê-lo. Talvez seja porque o amor nunca me trouxe felicidade e como diz a música, quando parece ser, não passa de pura casualidade. É estranho, mas todo “gostar muito”, na minha vida, transforma-se em dor.
Parece que o amor não quer bater por completo em minha porta e eu já cansei daquela brincadeira que nós fazíamos quando crianças, aquela que nós pegamos a rosa e vamos tirando pétala por pétala em um mal-me-quer, bem-me-quer infinito. Quantas rosas foram destroçadas!
A confusão é tanta que não sei definir em que estado de alma eu me encontro agora. Ando recusando convites que há dois meses nunca seriam deixados de lado, convites para fazer visitas. Muito embora aquela que habitou minha morada nos últimos meses diga por aí que eu pareço fugir dela, eu tenho fugido é de mim, dos meus sentimentos, de envolvê-la (ela que tão pouco merece) em minhas confusões imperecíveis, de machucá-la acima de qualquer outra coisa.
Enfim...
Não, não foi um ato corajoso reabrir aquele baú, muito pelo contrário, ele foi aberto em um momento de leve desespero. Eu, já por muito tempo, quis abri-lo, mas tinha um medo que foi sobreposto pela agonia de ter um objeto ali parado, impedindo passagens, chamando atenção e querendo alguma também. Hoje eu coloquei algumas coisas novamente dentro do baú por medo de que elas se perdessem, se desgastassem antes do tempo e por puro cansaço também de tê-las imóveis, sem sentido. Sinto que elas estão mais protegidas lá dentro. Eu continuo me possibilitando conhecer a minha dor, vivê-la e sofrer mais pelo mesmo motivo, lembrando dos dias em que, como diz o Poeta, passei à sombra dos gestos dela, bebendo o perfume dos seus sorrisos.
Em um leve piscar de olhos, ela veio e se foi: fantasia. Sim, mais uma! É preciso que, em determinados momentos, nós abramos esses baús para que algumas coisas tenham mais acepção.
Dessa vez ela não falou das minhas metáforas, mas me pediu ponderação e que eu tentasse esquecê-la mais uma vez, apontou-me como defeito ser idealista. Nos dias em que eu me permitir ser consumido por ponderação e realismos bobos, amigo, arranca-me tudo que tu puderes, inclusive o meu 'pseudopoetismo'. Deixa-me nu e sozinho diante de multidões, retira-me o último véu de consciência e encha-me de paradoxos para que a loucura me alcance e eu seja pisado por minhas próprias dúvidas.
Eu estou aqui, ela sabe, para o que for necessário. Se ela precisa de força, ela vem buscar e eu dou o pouco que ainda me resta com o maior carinho. Das vezes que eu precisei (inúmeras), não a encontrei. Normal. Este poeta hoje está firme, muita dor plangente trouxe rigor!
É, amigo, eu lembro sim desse episódio, daquela fogueira, das lágrimas; era outubro em terras onde o verde do capim é vibrante por ser regado por chuvas diárias. Não era mentira, era o coração pedindo tempo de chorar, implorando trégua, afinal nós precisávamos tentar, não? Conseguimos? Não, mas tentamos, oras! Eu não queria, mas fui encorajado pelo “Hoje eu briguei com o amor”. E depois, enquanto vocês jogavam bola? Eu chorei todas as lágrimas que carregava em mim. Em soluços, sob um edredom, recebi um abraço de quem, como eu, não queria esquecer, mas precisava tentar e queimou fotos substanciais. Do que o fogo consumiu, um desenho que ela nunca vira, mas que eu pretendia mostrar-lhe um dia. Hoje eu precisava vê-lo, tentar sentir a paz que me enchia quando o fiz, mas não o tenho, assim como não a tenho também. Depois de tudo, os meus dias continuam sendo dela: dias de riso, de gozo, de feira, de música, de dor, de saudade, de porre, de vícios. Ela sabe que é a minha mais profunda poesia, ela me faz inteiro poeta.
Na verdade eu penso que talvez eu não tenha medo de amar, mas sim das conseqüências que isso me traz. E agora tenho medo de que a brincadeira do mal-me-quer e bem-me-quer mate a minha rosa que se mostra inteira resistente a mim e a si. Não sei até quando, de fato, ela permanecerá querendo lutar e criando novas e novas pétalas pra que nós arranquemos. Essa não será mais uma rosa destroçada!
Fico por aqui e vou esperar aquelas cartas, viu? Quero saber os teus desfechos, das tuas esperanças, das tuas conquistas e o que acontecerá entre a "luta e o amor".

PS.: A minha oportunidade vem do mar!

Abraços saudosos do teu amigo Poeta.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Quando o poeta fala de amor


Nas noites do mais silencioso barulho,
Elas tentam se esconder atrás de seus frágeis sorrisos.
Os olhares ansiosos procuram,
Se procuram,
Aquela que outrora machucou, hoje parece ferida .
O semblante está invariavelmente perdido
E num ato desesperado ela machuca mais um pouco
Machuca a si mesma, faz machucar
Mas ela continua perdidamente vazia
Elas se procuram

Lembra-te desse pseudo-poema? Acho que não, lembrei dele assim que li tuas palavras, a propósito está cada vez mais difícil escrever a tua altura, sabes que sou melhor com as palavras faladas, do que com as escritas, mas vou me arriscando.
Que coragem a tua de abrir aquele baú, aquele que tenho quase certeza de que todos nós temos um guardado em algum canto de nossa humilde morada. Confesso-te que, há dias em que faço força para nem lembrar dele. Lembras, também, de quando estávamos naquela cidade das mangueiras, e eu dei a idéia de nos livrarmos de nossos fantasmas “de amor”, tu me perguntaste, olhando diretamente pra mim, com os olhos um tanto encharcados: Tu realmente quer esquecer? E eu lhe respondi firmemente que sim. Mentira! Mas uma daquelas mentiras que contamos para nós mesmos a fim de que seja mais fácil acreditar, ou seria esquecer?
Eu não quis, não quero e nem posso me livrar de meus fantasmas, de meu baú. Seria como abandonar a mim mesmo, no meio da estrada, sozinho, numa noite eterna e sem estrelas. Seria, talvez, como deixar para trás meus livros de poesia, aqueles que ganhamos de bons amigos. Seria como deixar esquecida, aquela companheira xícara de café. Seria como silenciar a velha, mas única, vitrola que resiste intacta ao tempo. Seria como esquecer as palavras e rasgar poemas.
Estás certo, não podemos abandonar isso, porque isso é parte de nós. Por que isso é amor. Porque amor, mesmo quando fala de desamor, mesmo quando chorado, sofrido e malamado, é amor. É aquele delicado amanhecer, que entra pela janela, afaga teu rosto e te chama a levantar, a viver, e a cantar. E assim, antes que tu saias para começar esse dia, ele te presenteia com um sorriso, que nasce talvez de um beijo, ou de um outro sorriso, ou da contemplação de um terno adormecer, de uma lembrança...
E à tarde, quando se é surpreendido por aquela deliciosa preguiça, eis que antes de se entregar você se aconchega aos macios braços do poema de amor. E é presenteado com um lindo sonho, onde as flores cantam os poemas de esperança, e as sementes que os ouvem se arriscam a deixar sua grossa casca de proteção e, tímidas, mas persistentes elas começam a aparecer e a transformar todo o jardim a seu redor.
Ao acordar, estão todas as suas forças revigoradas, e suas idéias, e seus sonhos. E eis que o espetáculo em que o sol, em lua se transforma, traz consigo as palavras certas, para você terminar aquele lindo poema. Aquele que você cantará mais tarde, enquanto sorve cada parte dele, enquanto toca suavemente suas formas, contemplando sua métrica. Aquele que fará os olhos se cerrarem, diante do inundante êxtase do gozo, ou como meu amigo Poeta diz, o momento em que se sente completo no outro.
Ah meu amigo, guarde mesmo o mar, contemple o mar, sinta o mar. Assim, quando aquele temido e bisbilhoteiro senhor, chamado Tempo, vier lhe aplicar qualquer uma de suas artimanhas, distraía-se com o mar, com o vai e vem de suas ondas, que trazem... que levam... que trazem... que levam... que levam, mas trazem!
Eu acredito em ti quando dizes que escreves só metade do que sentes. Eu diria até que qualquer poeta escreve só metade do que sente, assim como ele mesmo é metade poesia, a outra metade é feita de amor, temperada com uma porção de dor (a gosto), uma colher e meia de esperanças, uma pitada de decepção e tudo vai parar numa fôrma de angústia. Mas tudo não cabe numa fôrma, e assim o que sobra vai para as palavras, ou ele deixa derramar... e inundar o mundo.
E por falar em poeta, não posso deixar de comentar a respeito de uma de suas rimas preferidas: amor e mulher. Tu, meu amigo, bem me mostrastes o quão perfeita é essa rima. Afinal, seja na malícia quase assustadora de quererem ocupar os lugares que não lhes pertencem, seja naquele doce e irrecusável pedido por qualquer coisa, em qualquer lugar, seja pela entrega ilimitada, ou ainda pela manipulação calculada, seja na determinação de conseguir e lutar pelo que querem, ou mesmo no medo, quase irritante, de não seguir em frente para não perder, seja por fim, por despertar, alimentar, ou até matar (mesmo que não morra) esse tal amor, que elas são cúmplices e amantes perfeitas do poema, ou seria do poeta?
Chega de frases desconexas por hoje!Encontre-me na esquina mais próxima, no banco mais vazio, da Praça dos Poetas, na Cidade das Palavras. Tu levas os cigarros, eu o vinho, a noite os poetas, as estrelas os poemas, e vamos sim sustentar esses vícios, principalmente esse vício, chamado amor.

Um grande abraço,

Desconexo.

P.S. Minha oportunidade vêm dos deuses, e a sua?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O baú dela.

Amigo Desconexo, agora quem deve desculpas sou eu, não? Mas tenho mil motivos por não te ter escrito antes, já que te cobrei rapidez por aquelas escadas da vida.
Devo anunciar-te, antes de qualquer coisa, que aquela nuvem fria, que me roubava palavras e poemas, já se foi e levou com ela um pedaço da escuridão que me fazia esquecer o melhor em mim.
É, e tu tens tanta razão que não sabes o tamanho. O cheiro ruim permanece, mas agora, entre ele, sinto os melhores cheiros: de amor que sai dos casais que dividem a praça comigo, enquanto eu escrevo sob a sombra daquela grande árvore antiga; o cheiro de poesia, de poema vibrante; hoje eu pude enxergar notas musicais e ver felicidade e esperança nos olhos dos que passavam por mim.
Quando passei pela barbearia, o meu amigo Barbeiro veio de lá sorrindo, como se já soubesse o que acontecera, tocou meus ombros e disse que se eu olhasse pro céu, acharia a minha poesia brincando entre o vento e pediu que eu não esquecesse o mar, mas que o deixasse guardado.
A imagem daquele mar não saiu da minha cabeça. Cheguei em casa e resolvi abrir o baú que me amedrontava. Aquele baú onde eu guardei tudo que me remetia àquela mulher (o Meu poema, que de tão perfeito, é parnasiano), por puro medo de ter que encontrá-la, sorrindo linda e descontraída para mim pelos cantos da casa. É, ela é a mulher que disse que as minhas metáforas são maiores e mais fortes que o meu sentimento por ela. Ela não sabe, amigo, mas o que eu escrevo é só metade do que eu sinto. Metade? Não sei se chega a tanto. Quem me dera poder escrever algo mais forte ou com a mesma intensidade, certamente todos se encantariam por cada palavra e estas conquistariam o mundo.
E eu te pergunto: por que o tempo não nos deixa cuidar de nossas questões sozinhos? Que mania de meter o bedelho onde não deve, nos fazendo de fantoches em um leve-e-traz sem fim!
Ela foi embora, mas os móveis dela continuam intactos aqui dentro, os espaços dedicados a ela são tão grandes que não caibo em mim; piso delicado e cuidadosamente em cada canto da pequena casa para que eu não derrube qualquer coisa que ela tenha deixado. Algumas outras vieram e tentaram usar as coisas que eram dela e não duraram muito na minha humilde morada.
Assim são as mulheres, amigo, se elas viessem, como veio o meu melhor poema, apoiando-se apenas nele mesmo, sem procurar inspiração nos que já estavam feitos e terminados, elas conseguiriam também ser poema de amor. Mas que mania terrível elas têm em querer usar malícia para ocupar espaço. Os meus vazios, que já são mínimos, não são ocupados assim.
É, as mulheres precisam sim, muito, serem contrariadas! Mas agora eu te pergunto, amigo Poeta: onde achar coragem e ousadia para contrariar seres dos quais somos dependentes? Quando elas vêm, o corpo, a mente e todo o resto se enchem de SIM, um sim que possui força e pulsa dentro do peito. Principalmente quando se trata de poetas como nós, que querem viver, amar e se sofrer fizer parte, ótimo, porque sofrimento vira poema e dos mais lindos e bem escritos, no final vira música.
A única coisa que eu desejo agora, amigo, é me permitir sofrer por alguém que não me quer, por falta de reciprocidade. Eu quero me possibilitar conhecimento da minha própria dor, saber que isso também é válido, que eu sou a prova viva da tua teoria do ter e gostar. Por tudo isso, eu abstenho o resto porque até a dor que ela causa vale a pena.
É, vou me despedindo por aqui e te afirmo: jamais perderei a ternura, essa que amigos, como tu, me ajudam a manter.
Eu senti a frieza do teu papel, agora tu poderias me perdoar pelos pingos de vinho que molham esse em que te escrevo. Perdão, poeta, e me prometes que irás aparecer por esses dias para que possamos dividir mais alguns cigarros e recitar mais alguns escritos dos mestres, para sustentar vícios? Ficarei aguardando.


Abraços de um Poeta leve, orgulhoso, razoável, ébrio, nímio, amistoso.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Entre a sordidez e a insignificância


Caríssimo amigo Poeta,

Muito feliz fiquei em receber tão prontamente uma resposta as minhas divagações, mas como vê sou mais alheio ao tempo e prazos do que você, amigo. Mas perdoe-me, pois muitas das vezes tenho muitas coisas pra fazer e perco um tempo precioso tentando decidir a prioridade das coisas para, no fim, acabar confundindo prioridades e nem sempre fazer primeiro o que quero, ou precisa ser feito. Outras vezes decido que posso esperar um pouco mais para fazer o que tem que ser feito, me iludo por breves e deliciosos minutos que posso tranqüilamente deitar em minha rede, e vê as crianças brincarem despreocupadas, sentir aquele cheiro bom de comida quase pronta, fazer despretensiosos poemas com alguma peculiaridade da paisagem ao redor.
Uma ilusão que tem o seu preço, pois logo percebo que nada pode esperar, nem mesmo aquela comida, que já estava para ficar pronta, escapa dos apressados beliscões. É a inquietude do mundo, a pressa, o imediatismo, que nos envolve e nos angustia, veja que fria é a textura desse papel?

Inquieto fiquei eu em saber, que até o Poeta parece que foi envolvido por essa nuvem negra do prenúncio do fim. Em preto e branco, foi assim que li a as tuas palavras, senti falta de versos a colorir as nossas casinhas na serra, nossos sonhos por dias melhores, nossa luta por vida mais digna. Em preto e branco vi, e quase toquei, o teu esplendoroso sonho de nosso futuro tão aguardado, e fiquei a imaginar o que era mais lindo, teu sonho, ou tua maneira peculiar de descrevê-lo.

Ontem um velho, a quem quase ninguém ouve ou dá importância, me espreitava enquanto eu tecia um ácido comentário acerca de trabalhos maus feitos por meus companheiros, eu o surpreendi, e diante do brilho profundo de seus olhos castanhos, não sei quem ficou mais envergonhado, eu por ser surpreendido em minha sordidez, ou ele, em sua insignificância. Ele foi o primeiro a baixar a cabeça e dizer: “Há que endurecer-se sem jamais perder-se a ternura”. E, triunfante, a vergonha adentrou ao quarto de minha vida, e aquele grande homem se foi sem que eu tivesse tempo de me ajoelhar diante dele e pedir perdão por mim, e por todo o mundo.
Então, meu amigo, fica essa lição para nós: “Há que endurecer-se sem jamais perder-se a ternura”. Vou me lembrar de acreditar nos sonhos como prioridade e realidade, e esperar para que você leia e apreenda suas próprias palavras, de vez em quando. E então o poeta não perderá a ternura, nem as cores que o acompanham, não se deixará impregnar pelo cheiro das ruas que inevitavelmente tem que passar, porque traz consigo aquele cheiro bom de café e poesia, o cheiro colorido da frescura do amor, o brilho teimoso do cheiro das insinuações inocentes, a melodia cheirosa das notas do antigo violão, traz poema.

Por falar em poema, meu poema de amor continua na gaveta, poema. Egoísta, você tem razão, ele aguarda o momento de mais uma vez ser preenchido por minhas palavras. E eu aguardo mais ansiosamente ainda, o momento de pintar cada letra, como se fossem detalhes muito essenciais de um importante retrato, o retrato de nossas vidas. Egoísta e mimado, eis as palavras que me fazem poeta.

E agora fiquei a pensar, será que os poemas, como as mulheres, não precisam de vez em quando serem contrariados, para temerem por si mesmo e acabarem por dar o melhor de si?
Que a ventania que assola essas bandas leve tua rigidez, e me traga teus suaves poemas, que irão ter cor de terra molhada.

Meus mais sinceros votos de doses freqüentes de felicidade e inspiração,

Desconexo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sobre as nossas casinhas.

É, amigo Desconexo, quanto tempo sem as tuas, cheias de sentido, frases “soltas”.
Por aí chove? Por aqui o vento vem com tanta força que parece querer derrubar as palmeiras e levar com ele toda a sujeira que emporcalha as ruas. Eu queria, agora, poder sentir o vento tocar-me cada fio de cabelo, porém a rigidez que domina o mundo parece chegar a mim, amigo. Há algum tempo não escrevo e sinto que é uma fase que pode durar mais do que deveria.
Ontem sonhei com as nossas casas na serra. Eram exatamente como imaginamos: casas simples que me pareciam leves e as palavras brincavam lá dentro como crianças que precisavam ser podadas, mas, ainda assim, necessitavam estar livres. As casas tinham cercados, sem ornatos, feitos em madeira e precisavam de alguns consertos. Os móveis eram antigos e cheios de poeira. No canto esquerdo de uma delas, Desconexo, aquela máquina de escrever com que as palavras-pueris brincavam.
À frente, talvez tu não possas imaginar a beleza que os meus olhos fantasiosos puderam ver: um riacho de águas cristalinas com aves de todos os tipos e mais palavras, mas essas eram diferentes, amigo, elas vinham em conjunto e já me pareciam poemas prontos, mas que somente olhos bem treinados poderiam sentir e capturar: como um processo fotográfico!
Eu fiquei imaginando que lá os poemas teriam fim e o teu poema de amor se faria perfeito em versos.
Final de ano sim, Desconexo, e mais uma vez os planos estão em sonho, mas tu não podes pensar que deixo de acreditar em cada um deles como prioridade e realidade.
Por aqui as pessoas encheram as casas de cores que normalmente são verde e vermelho. Elas celebram cada dia que passa e eu mal consigo enxergar essas cores, principalmente as que vêm de dentro delas. O cheiro da podridão interna dessas pessoas começa a dominar os becos e ruas também imundos. Outro dia o Sr. Barbeiro, da esquina, que recebe alguns soldados e é um dos únicos homens “limpos” que vivem por essas bandas, me disse que as ruas eram reflexos de cada ser imundo que mora aqui. Ando preocupado.
Amigo, quanto ao teu poema, tu não precisas te preocupar: nós, que somos poetas, sabemos que o poema se sabe de amor muito antes de ser escrito porque ele é conseqüência de sentimentos puros. Não é assim? O teu, provavelmente, é só um poema orgulhoso, talvez ele seja egoísta e queira ser mais trabalhado que os outros. Como são bobos esses remédios de alma.
Mas entenda outra coisa, amigo, um poema é poema completo tendo uma, duas, três estrofes ou não as tendo. Até aquele que ainda está para nascer já se sabe poema.
E, olha, assim que a rigidez que me toma der-me uma trégua, mando-te algo meu para que possas ler.

Abraços do teu amigo
Poeta.

Ao amigo Poeta,


Dos meus sonhos pós-revolução, sonhei com aquela casinha na serra, e sonhei com o poeta de meu vizinho... Sonhei que não era mais preciso sonhar... E acordei assustado com o sonho, que pesadelo se tornou...
Desculpe por esse começo meio sem sentido, mas me lembrei, já no meio do caminho, que não sei começar... E desde de que poeta, tu me chamou, com as palavras não sei mais brincar...
As chuvas começaram por aqui poeta, é engraçada essa sensação de fechar os olhos e parecer reviver tudo de novo. Todos os fins de ano são iguais: meia dúzia de nostalgia, uma pitada de saudade, duas colheres e meia de planos, acompanhados de uma colher de chá de frustração...
A revolução entrará por mais um ano, e por mais um ano vai ser adiada aquela bela pintura de casinha na serra, livros espalhados, canções antigas. Não estou triste, a maior parte do tempo à luta me traz os poemas que o amor me nega. Mas a verdade é que a fraqueza me espreitou por todos os caminhos que por esses tempos venho percorrido, e numa vida de lutas, a fraqueza é pior que a morte. Penso na morte como uma conseqüência, mais um ato no teatro da vida, mas a fraqueza é uma doença, assim como um vírus que não te mata mas te tira a vontade, o espetáculo não acaba, mas são abaixadas as cortinas. Ela ainda está aqui, olhando pra mim meio de lado, mas me resta lucidez o suficiente para que ela não se aproxime.
Além da fraqueza, agora passei a dividir o quarto com a aflição. É que além de todas aquelas coisas, de que já falei, o fim de ano me traz também lembranças, lembranças muito boas, mas angustiantes também. Sim poeta, eu tenho um poema mal resolvido, um poema de amor. E eis que as lembranças me trazem as estrofes mal terminadas daquele poema.
Estou em um dilema: o poema não está terminado, não pode ser declamado, é por vezes complicado demais até para mim, mas ainda assim é poema, ainda assim pulsa em mim cada letra daquela, ainda assim canta em mim cada estrofe, é o poema que ainda me faz poeta, me preenchendo de amor, de vida, de vontade, me esvaindo de saudade, de quase dor, de angústia. Não sei o que fazer. Daqui a alguns dias é o dia do poema, confesso que por mim faria algo especial, simples o bastante para o poema saber que é poema, que é de amor. Mas tenho medo, medo do ridículo, medo da insignificância, medo de em vez de escrever mais uma estrofe, apagar uma que já está escrita. Não sei o que fazer.
Está bom de lhe importunar por hoje, gostaria muito de saber notícias suas, um poema novo, quem sabe?! Afinal, o poeta aqui é você, eu escrevo apenas pseudo-poemas, em uma vida de sonhos, e essas foram apenas algumas frases soltas do seu amigo,

Desconexo.